estória oito

8 de Março de 2013 § Deixe um comentário

«artes performativas»

Leonor é uma menina das artes e ama o cinema da mesma forma que ama a fotografia da mesma forma que ama a prosa da mesma forma que ama a poesia da mesma forma que ama.

– Dá-me deleite ficcionar a vida real das pessoas que se entregam à representação – nunca precisou de confessar Leonor. Por alguma razão é por conhecer a riqueza desta criatura que me propus apresentá-la.

Distingo perfeitamente quando, no escuro de uma sala de cinema ou da correspondente de teatro, Leonor lança o seu ombro direito contra o meu esquerdo para me transmitir que o actor em acção não deveria misturar o tinto (que como personagem é obrigado a beber) com o leite em estado puro que tragou ao pequeno-almoço, em casa, com a ciumosa esposa, horas antes de ter filmado a cena em questão; ou quando, com uma ténue joelhada, a nossa amiga me faz ver que a personagem em palco, criança com mais queda para a actividade circense do que para o teatro, ressente-se do pulso ferido dois dias atrás, após uma rasteira na aula de educação física; e o que dizer da bailarina que se saracoteia como uma pluma (afigurando-se mais a uma nuvem que plana em câmara ronceira), que Leonor me informa que é vítima de novo amor-paixão, com um ligeiro raspar do seu pé no meu sapato (pois nem atingiu o pé)?.

Em todas estas situações, a nossa amiga aproveita a gravidade como colete-de-forças para refrear o ensejo de subir ao palco e, ela própria, com toda a legitimidade, enfrentar o foco de luz com a sua lâmpada de cabeça e uma voz bem colocada para um monólogo que abra a cortina destas vidas, tão semelhantes às nossas, na realidade e na ficção.

– Pensava que ela bailava assim por se exercitar com botas com biqueira de aço – cismei.

– Isso é porque não te entregas à poesia – contra-cismou.

 

parágrafo integrante do projecto-em-construção Leonor

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