estória seis (inédito)

8 de Setembro de 2012 § Deixe um comentário

«viandante»

quando em viagem, é importante dissecar a cidade entre os diversos tamanhos dos seus componentes,
objectos definidos em proporção, de zooms a escalas, de microscópios a lentes.
para o viandante, a ideia do formigueiro urbano é traduzida pelo que se diz, ouve ou vê,
conforme o que distingue da avioneta, sentado no limite esquerdo, pernas dobradas, joelhos a tremer, tronco esticado para uma janela redonda com 23 centímetros de diâmetro,
conforme o que presume pelo foco do postal, com a sua imagem estática a preto e branco concentrada num dos bairros que, no quotidiano, se pinta da luz e calor do sol,
conforme o que sente a caminhar, os músculos e as articulações que ajudam a subir e descer escadas e vales, miradouros e eremitérios, becos e avenidas, jardins e árvores,
conforme o que espia pelo mapa, os milímetros que encolhem autocarros de dois andares, prédios de 20 pisos (e o que dizer dos prédios dos subúrbios, cujo mesmo número de andares o torna inferior até sem elevador? a loucura de transportar as compras, a pé até ao último andar, pé ante pé, primeiro o direito, depois o esquerdo, sacos na mão, primeiro a direita, depois a esquerda),
conforme o que contraria ao segundo dia de visita, com a ajuda de um roteiro de 400 páginas que descreve a história, as celebridades, a doçaria, as temperaturas, máximas e mínimas, do ar e da água, o horário de verão dos eléctricos públicos,
conforme o que lê pelo nome da urbe inscrito num sinal de trânsito, conjunto de letras brancas que se estacam em fundo encarnado e significam os milhões de habitantes, casas de apostas e cinemas.
a beleza do desafio de se transportar no terreno, espaço de manifesta curiosidade:
na rua, descrita e inscrita pela toponímia que celebra uma vitória em guerra, a relevância de uma invenção local, o nome próprio do pai de família, jornalista, poeta, escritor, cronista, leitor, ilustrador, metereologista, fumador, canceroso,
a melodia que esvoaça da janela com acesso ao estendal que se usa para exibir a roupa molhada mas lavada, a sugar os raios solares, entre molas dotadas de escala cromática, camisola sem mangas acrescida de imposto sobre valor acrescentado, oferta de saco com logotipo, trocas até 30 dias,
o passeio que se abre à mistura dos transeuntes com os locais, dos transeuntes com os polícias, dos transeuntes com os ilegais, dos transeuntes com os loucos, dos transeuntes com os animais domésticos,
a estrada que se fecha pela invasão de carros estacionados (em fila, de lado, perpendiculares) e de carros em andamento (em fila, de frente, paralelos), interdita a camiões, carroças, cadeiras de roda, carros telecomandados, carrinhos de supermercado, carrinhos de linhas;
no monumento, cujo nome lhe dá significado e se lê a 200 metros, numa distância que se percorre em cinco minutos, entre fotografias, do clique ao flash, do presente ao passado, do fixo a partir do que se agita,
a entrada, as escadinhas com degraus em altura, as setas, a indicação de bilheteira, o preço que se paga para alimentar os olhos, o cérebro e o tempo que se economizou para os míseros dias de férias, numa luta em contraciclo,
a necessidade de utilização da casa de banho e a escolha segundo se é homem ou mulher ou deficiente ou criança ou adepto do mais bem sucedido clube desportivo local,
o respeito pela antiguidade, pela obra arquitectural, pelo guia, pela prioridade numa rotunda, pelo silêncio da noite transposto para o dia;
no restaurante, cujo lettering do menu difere com o traçado no cartão com calendário impresso a cada 365 dias, 366 se ano bissexto, culpa de Fevereiro que a cada quatro anos cresce um dia, como a língua,
os diferentes pratos do dia, repartidos entre peixe e carne e macrobiótico nas páginas não numeradas,
em que, por exemplo, os 8 euros de um bacalhau à brás significam toda uma receita, com peixe, com batatas palha, com ovos, com água a escaldar, com azeitonas, com caroços, com cebola, sem costoleta de porco, sem osso, sem piri.piri, conforme, sem fome,
e os pratos combinados, com pão, com queijos e manteigas, com bebida, com bacalhau à brás, com sobremesa, com café, por apenas 9 euros e meio (acaba por render, mesmo para aqueles que, tal como eu, não bebem café nem fumam cigarros);
no livro sobre a cidade, que se leu e recorda quando se passa a fazer parte dela, resultado de noite dormida, entre lençóis de flanela e cobertor macio, brancos, lavados com lixívia diariamente,
pela própria sombra, representada num muro de pedra, nas escadas que se pisam para dar utilidade à estação de metro ou na areia da praia que se escurece e escava para passar o tempo,
mas também pelo tamborilar no decorrer da leitura em voz alta, pelo questionamento de como se diz uma asneira e pela escuta activa numa discussão com a cara metade.
quando em viagem, a evolução toma conta dos dias que nunca se repetem,
há aviões com cozinhas equipadas, auto.estradas com crescente número de faixas, bicicletas para 8 pernas, caixas de supermercado poliglotas, andaimes que oferecem vistas únicas, papel higiénico reutilizável, vacinas para se ser imune às doenças locais, et cetera,
porém, na partilha de uma cidade, como apagar a palavra que se disse, ouviu ou viu por engano?

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