estória três

15 de Fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

«Lídia, senta-te à beira do rio com o Ricardo Reis, antes que ele faça queixinhas ao Fernando Pessoa»

o curso do rio não se compara à queda de pingos de chuva ou de água canalizada,
o curso do rio é tropo de vida, numa torrente de forças e correntes,
por vezes contrárias, por vezes convenientes,
[depende do estado de espírito do rio].
Ricardo Reis sabia disso e instou Lídia, a sua namoradinha espondilótica, a sentar.se junto dele,
via que a vida é tropo do rio, numa enchurrada de dor e calafrio,
conhecia das propriedades recobradoras da água doce,
[não depende do estado de espírito do rio].
e Lídia sentou.se com ele à beira do rio e sorriu,
e Reis puxou da sua licoreira de vidro e locupletou.a,
deram as mãos depois de se certificarem de que “não estamos de mãos enlaçadas”
[confessou o poeta].
contemplaram demoradamente a licoreira farta de água doce,
todo outro rio, cidade, vida,
as termas e os furos,
[tropo de microcosmos, nas suas mãos enlaçadas].
imaginaram o curso de água que cada um gozava de correr,
e a dor e o calafrio…
o mar tão longe, ao pé do fado, onde desagua o rio,
[o luto e a luta na torrente de forças e correntes].

é a vida…
“mais vale saber passar silenciosamente.
e sem desassossegos grandes.”

[a partir de “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio”, de Fernando Pessoa]

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estória dois

6 de Fevereiro de 2012 § Deixe um comentário

«efémero»

na sombra das exéquias, um pomar,
cinzento, sem noite, uma espécie de aurora utópica.
da raiz, derriba.se um alicate, cardíaco,
porém, tarde é demais, sem noite, epifania extinta.
apraz.me distinguir as curvas de uma vida perpendicular à base,
frágil esqueleto de anatomia erótica.
montar o sangue como peça de lego na memória,
na sombra de um pomar, a biografia é jazigo.

Where Am I?

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